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Análise da Evolução da Densidade Óptica do Pigmento macular com a Idade

Tendo em consideração as características do Pigmento Macular e o papel do stress oxidativo na patofisiologia da Degenerescência Macular Relacionada com a Idade (DMRI), vários estudos procuraram definir uma relação entre ambos, estando hoje estabelecido um papel protector do PM na DMRI.

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INTRODUÇÃO

O pigmento macular (PM) é formado pelos carotenóides luteína e zeaxantina (1,2). Visto que estas moléculas não são sintetizados pelo organismo, a sua obtenção é feita exclusivamente através de fontes alimentares, nomeadamente pela ingestão de gema de ovo e de frutos e vegetais de folhas verdes e cores variadas (11).

Relativamente à localização, o seu pico situa-se na zona central da retina (1º a 2º centrais da fóvea), sofrendo uma diminuição periférica progressiva, estando ausente a partir dos 8º a 10º de excentricidade foveal (12). Histologicamente, observa-se que o PM está situado em maior concentração nas camadas retinianas plexiforme externa e plexiforme interna, sendo responsável pela coloração amarelada característica da mácula (5).

No que diz respeito às suas propriedades, o PM apresenta um pico de absorção situado nos 446 nm, correspondente à luz azul, luz esta que provoca lesões retinianas com maior facilidade devido ao seu menor comprimento de onda e elevada energia. Por outro lado, o PM constitui um eficaz neutralizador das espécies reactivas de oxigénio.

Estas duas propriedades conferem-lhe um efeito anti radicais livres, diminuindo assim a peroxidação lipídica de ácidos gordos, a consequente alteração funcional e morte celular e ainda a formação de produtos resultantes da peroxidação, nomeadamente lipofuscina (1).

A lipofuscina, um marcador de envelhecimento retiniano cuja acumulação leva à formação de drusens, é por si só capaz de gerar novos radicais livres quando exposta à luz azul, estimulando ainda a apoptose de células do epitélio pigmentar da retina (2).

Tendo em consideração as características do PM e o papel do stress oxidativo na patofisiologia da Degenerescência Macular Relacionada com a Idade (DMRI) (1,2), vários estudos procuraram definir uma relação entre ambos, estando hoje estabelecido um papel protector do PM na DMRI (1,2,3,6).

Tendo em conta não só o aumento da prevalência desta patologia inerente ao incremento da esperança média de vida, mas também a frequente ausência de um tratamento adequado, a prevenção surge como uma arma importante no combate à DMRI. Assim, o conhecimento dos factores determinantes da Densidade Óptica do Pigmento macular (DOPM) poderá permitir desenvolver medidas preventivas que actuem através do aumento do seu valor.

Neste sentido, estudos recentes demonstraram que alguns dos factores que provocam a diminuição da DOPM são também factores de risco para DMRI, nomeadamente o tabagismo, obesidade e história familiar (9,10). No que concerne à influência da idade na DOPM, os resultados têm sido contraditórios (3,10,12).

A medição da DOPM na prática clínica diária poderá vir a constituir um método de rastreio precoce dos indivíduos com maior risco de DMRI. Assim, é objectivo deste trabalho conhecer a distribuição dos valores da DOPM na nossa população. Por outro lado, pretende-se aprofundar os factores que provocam uma variação da DOPM, assim como o estudar a relação entre a DOPM e factores de risco para DMRI, nomeadamente a idade, um factor de risco major para DMRI (8).

Desta forma, será possível obter uma melhor compreensão do papel protector do PM na DMRI. Para dar resposta a estas questões, pretende-se analisar a distribuição de medições da DOPM numa amostra de 180 indivíduos.

Material e Métodos

A amostra do presente estudo é formada por 180 voluntários com idades compreendidas entre os 20 e os 79 anos de idade, sendo que a cada grupo etário decenal correspondem 30 voluntários. Os indivíduos foram submetidos à medição da DOPM através do aparelho QuantifEYE® (ZeaVision®), baseado na técnica Hetero-chromatic Flicker Photometry (HFP).

Esta técnica é não invasiva, não requer dilatação, é fiável e apresenta resultados reproduzíveis (4,12). O aparelho emite um estímulo composto por luz azul (465nm), absorvida pelo PM, e luz verde (530nm), que não é absorvida pelo PM.

O estímulo é emitido inicialmente com uma determinada frequência (flicker do estímulo), a qual vai sendo gradualmente diminuída. Quando o intervalo entre os flashes de luz intermitente é muito longo para permitir a fusão (correspondente ao ponto mínimo de flicker), o indivíduo vê a luz a “tremer”, sendo dada a indicação de que deverá pressionar um botão nesse momento.

São emitidos vários estímulos com diferentes proporções de luz verde e luz azul. É determinado o ponto mínimo de flicker correspondente a cada ratio de luz verde/ luz azul, permitindo a obtenção de uma curva de medição. A medição foi realizada no centro retiniano, onde ocorre absorção de luz azul pelo PM. Na periferia retiniana, devido à ausência de PM, não ocorre absorção de luz azul, sendo a DOPM teoricamente zero. Contudo, visto que os meios ópticos amarelados absorvem luz azul, o aparelho estima automaticamente a medição periférica, tendo em conta a idade do paciente.

São então obtidas duas curvas, correspondentes à medição central e periférica (Fig.1). A diferença entre as duas medições deve-se à presença de PM no centro retiniano, permitindo o cálculo do calor da DOPM.

 

Fig. 1 – Exemplificação das medições central e periférica.A cada ponto corresponde o valor mínimo de flicker do indivíduo para um estímulo de determinado ratio verde-azul. Adaptado de van der Veen RLP et al 12.

 

A medição foi realizada no olho esquerdo ou no olho direito a cada um dos participantes, dado que não parece haver diferença interocular na DOPM medida por HFP (7). Analisaram-se as características da amostra e as medições da DOPM segundo a sua distribuição por sexo, idade e grupo etário decenal.

Resultados

Relativamente às medições de DOPM segundo o olho, verificou-se que não existe diferença estatisticamente significativa no valor médio e de variância de DOPM entre o olho direito e o olho esquerdo (p<0,05) (Figs. 2 e 3). Assim, a origem da medição não é considerada relevante na restante análise. A média global de DOPM é de 0,48 +/- 0,15.

Fig. 2  –  Histograma da distribuição da DOPM, segundo o olho.

 

Fig. 3 – Gráfico de caixa-e-bigodes: distribuição da DOPM, segundo o olho.

 

Na figura 4 está representada a distribuição de frequências de medição por escalão etário decenal, segundo o sexo. Verifica-se que 64% dos indivíduos da amostra pertence ao sexo feminino (n=115).

Fig. 4 – Gráfico de distribuição de frequências: medição de DOPM por grupo etário decenal, segundo o sexo.

 

Relativamente às medições de DOPM segundo o sexo, o valor médio de DOPM é de 0,47 +/- 0,16 e 0,49 +/- 0,16 em homens e mulheres, respectivamente. Esta diferença não é estatisticamente significativa (p=0,6069), tal como a diferença entre as variâncias de DOPM (p=0,1927) (Fig. 5).

 

Fig. 5 – Gráfico de caixa-e-bigodes: DOPM, segundo o sexo.

 

Relativamente à análise da relação da DOPMcom a idade, verifica-se uma correlação nega-tiva entre as duas variáveis (coeficiente de Pearson: -0,1167) (Fig. 6). Contudo esta relação não é estatisticamente significativa (p=0,1196). Os valores médios de DOPM por grupo etário decenal também não são estatisticamente diferentes (Fig. 7).

Fig. 6 – Gráfico de dispersão do valor médio de DOPM, segundo a idade.

 

Fig. 7 – Gráfico de dispersão do valor médio de DOPM, segundo o grupo etário decenal.

 

Verificou-se a existência de uma relação linear decrescente entre os valores de DOPM e a idade (Fig. 8), traduzida pela seguinte equação de regressão: DOPM = 0,5346 – 0,0010 7 x idade

Esta relação não é estatisticamente significativa (p=0,1196), apresentando um coeficiente de determinação associado de 0,0136. Este coeficiente mede, numa escala de 0 a 1, a quantidade de variabilidade explicada pelo parâmetro em estudo. No caso da DOPM, só 1.36% da variabilidade é que pode ser explicada pela idade.

Fig. 8 – Gráfico de dispersão da DOPM segundo a idade, com representação da recta de regressão.

 

Conclusões

A média global de DOPM encontrada nesta população portuguesa foi de 0,48+/-0,15, um valor semelhante ao encontrado noutro estudo que utiliza a técnica HFP, em indivíduos de idades entre os 22 e os 64 anos (4). Verificou-se que não existe diferença estatisticamente significativa entre os valores médios de DOPM por sexo, tal como já descrito (12).

Assim, apesar de o sexo feminino ser frequentemente apresentado como factor de risco para DMRI (1), essa influência não parece derivar de uma relação entre o sexo e os valores de DOPM.

Os resultados parecem mostrar uma diminuição da DOPM com a idade. Deste modo, o facto de a idade constituir um factor de risco para DMRI poderá dever-se a uma diminuição da DOPM com o envelhecimento. Dado que a correlação negativa encontrada é consistente com outros estudos (3,10), a falta de significância estatística dos resultados poderá dever-se à baixa dimensão da amostra e a erros de medição.

Uma grande variabilidade na DOPM fica também por explicar. Essa variabilidade poderá estar relacionada com os motivos já referidos, assim como com a existência de outros factores determinantes. Futuramente, pretende-se analisar a associação entre a DOPM e factores de risco para a DMRI (1,8), nomeadamente hábitos alimentares, suplementos vitamínicos, tabagismo, antecedentes pessoais e familiares e Índice de Massa Corporal.

Apesar de ter sido determinado um valor médio de DOPM nesta população, seria também interessante analisar a partir de que valor do DOPM aumenta o risco de DMRI, assim como qual o limiar para iniciar suplementação com carotenóides.

Leia este artigo completo na versão original AQUI NESTE LINK.

Agradecimentos

Os autores agradecem aos voluntários que participaram neste estudo. Agradece-se também a colaboração da Théa® Portugal, pelo fornecimento do equipamento utilizado.

Bibliografia

  1. AHMED SS, LOTT MN, MARCUS DM.: The macular xanthophylls. Surv Ophthalmol 2005; 50: 183-193
  2. BEATTY S, BOULTON M, HENSON D, KOH H-H, MURRAY IJ.: Macular pigment and age related macular degeneration. Br J Ophthalmol 1999; 83: 867-8771
  3. BEATTY S, MURRAY IJ, HENSON DB, CARDEN D, KOH H, BOULTON ME.: Macular pigment and risk for age-related macular degeneration in subjects from a northern european population. Invest Ophthalmol Vis Sci 2001; 42: 439-4461
  4. BERENDSCHOT T, VAN DER VEEN R, CARDEN D, VAN NORREN D, MURRAY L.: Desktop macular pigment optical density measurement: a new approach based on heterochromatic flicker photometry. Invest Ophthalmol Vis Sci 2007; 48: E-Abstract 21381
  5. BONE RA, LANDRUM JT, FERNANDEZ L, TARSIS SL.: Analysis of the macular pigment by HPLC: retinal distribution and age study. Invest Ophthalmol Vis Sci 1988; 29: 843-8491
  6. BONE RA, LANDRUM JT, MAYNE ST, GOMEZ CM, TIBOR SE, TWAROSKA EE.: Macular pigment in donor eyes with and without AMD: a case-control study. Invest Ophthalmol Vis Sci 2001; 42: 235-2401
  7. HAMMOND BR JR, FULD K.: Interocular differences in macular pigment density. Invest Ophthalmol Vis Sci 1992; 33: 350-3551
  8. KLEIN R, PETO T, BIRD A, VANNEWKIRK MR.: The epidemiology of age-related macular degeneration. Am J Ophthalmol 2004; 137: 486-951
  9. NOLAN J et al.: Macular pigment and percentage of body fat. Invest Ophthalmol Vis Sci. 2004; 45: 3940-3950
  10. NOLAN JM, STACK J, O’DONOVAN O, LOANE E, BEATTY S.: Risk factors for age-related maculopathy are associated with a relative lack of macular pigment. Exp Eye Res 2007; 84: 61-74
  11. THURNHAM DI.: Macular zeaxanthins and lutein – a review of dietary sources and bioavailability and some relationships with macular pigment optical density and age-related macular disease. Nutr Res Rev 2007; 20: 163-179
  12. VAN DER VEEN R, BERENDSCHOT TTJM, HENDRIKSE F, CARDEN D, MAKRIDAKI M, MURRAY J.: A new desktop instrument for measuring macular pigment optical density based on a novel technique for setting flicker thresholds. Ophthal Physiol Opt 2009; 29: 127-137

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